Gestão e IA · 7 min de leitura

IA em processo torto é erro em alta velocidade

O que as pesquisas de 2025 e 2026 dizem sobre projetos de IA que não saem do piloto — e por que a medição vem antes da ferramenta.

Toda semana alguém me pergunta qual ferramenta de IA deveria comprar. Quase sempre respondo com outra pergunta: quanto tempo leva hoje, do começo ao fim, o processo que você quer automatizar? Na maior parte das vezes ninguém sabe. E aí está o problema.

A IA acelera o processo que você já tem. Inclusive o ruim. Se a etapa é confusa, a IA produz confusão mais rápido; se o dado entra errado, ela erra com mais confiança. Não é uma opinião contra tecnologia — eu desenvolvo sistemas. É uma leitura do que as pesquisas recentes mostram.

O que os dados dizem

Três números ajudam a enxergar o padrão. Nenhum deles é brasileiro, e cada um tem limite; por isso vão com a fonte.

  • S&P Global (2025, cerca de mil empresas dos EUA e da Europa): a parcela de empresas que abandonou a maior parte das iniciativas de IA antes da produção passou de 17% para 42% em um ano.
  • Gartner (jan/2026): pelo menos metade dos projetos de IA generativa foi abandonada depois da prova de conceito até o fim de 2025 — por dados ruins, risco, custo ou valor indefinido. É estimativa de consultoria.
  • Workday (jan/2026, empresas acima de US$ 100 milhões): quase 40% do tempo economizado com IA volta como retrabalho. É pesquisa de fornecedor, com autorrelato.

Sensação não é métrica

O dado que mais me marcou veio de um ensaio randomizado do METR (2025) com desenvolvedores experientes: eles estimaram que tinham ficado 20% mais rápidos usando IA; medidos, estavam 19% mais lentos. Em 2026 o próprio METR avaliou que as ferramentas melhoraram e que hoje provavelmente aceleram — mas que ficou mais difícil medir. As duas coisas precisam ser ditas juntas.

A lição não é que a IA não funciona. É que a percepção de quem usa não substitui a medição. Se ninguém mediu antes, ninguém pode dizer que melhorou.

Se ninguém mediu antes, ninguém pode dizer que melhorou.

Quando funciona

Também há evidência favorável, e ela é instrutiva. Num estudo com 5.172 agentes de atendimento (Brynjolfsson, Li e Raymond, QJE 2025), a ferramenta de IA aumentou em média 15% as questões resolvidas por hora — com ganhos muito diferentes entre iniciantes e experientes. Uma implantação, num tipo de trabalho: não dá para generalizar, mas mostra o caminho. A IA ajudou onde a tarefa era repetitiva, mensurável e bem delimitada.

No Brasil, a TIC Saúde 2025 do Cetic.br mostra que a IA entra primeiro pelo administrativo: organizar processos clínicos e administrativos é o uso mais citado. E metade dos hospitais com mais de 50 leitos aponta limitações de dados e de capacitação como barreira. De novo: processo e gente antes da ferramenta.

Uma sequência que protege o investimento

Antes do próximo contrato de software, a ordem que recomendo é esta:

  • Medir: linha de base de tempo, retrabalho e erros em dois ou três fluxos.
  • Mapear: o fluxo real, desenhado com quem executa.
  • Simplificar: cortar a etapa antes de automatizá-la.
  • Capacitar e dar dono a cada etapa.
  • Integrar os dados que já existem, acabando com a planilha paralela.
  • Só então aplicar IA — na etapa repetitiva, mensurável e segura, com a métrica de sucesso escrita antes.
  • Medir de novo, do mesmo jeito, e declarar os limites.

É o Método D.O.S.E. aplicado à tecnologia: Diagnosticar, Organizar, Sistematizar, Evoluir. Não é o caminho mais rápido para comprar uma ferramenta. É o caminho mais curto para que ela sirva.

Declaração de interesse: a Vixio desenvolve sistemas. Por isso começo pelo processo — e, muitas vezes, a melhor recomendação é não comprar nada.

Próximo passo

Do texto para a sua operação.

As ferramentas gratuitas medem onde você está antes de qualquer decisão.